Issue 1 | 1st January – 30th June 2022
Fascículo 1 | 1 de janeiro – 30 de junho 2022
UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA
e-ISSN 2183-4806
FREE | GRATUITO
XVIII
VOLUME
UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA
e-ISSN 2183-4806
FREE | GRATUITO
Issue 1 | 1st January – 30th June 2022
Fascículo 1 | 1 de janeiro – 30 de junho 2022
XVIII
VOLUME
PSIQUE | Volume XVIII | Issue 1 | 1st January – 30th June 2022
Semiannual Publication. Scientic Journal of the Psychology Research Centre – CIP – from the Universidade Autónoma
de Lisboa – Luís de Camões.
PSIQUE is a scientic journal in Psychology published by the Psychology Research Centre of the
Universidade Autónoma de Lisboa.
Since 2005, PSIQUE has been publishing original papers in the scientic eld of Psychology, in its
several elds of specialization, in open access and free of charge.
From 2018, it is a semi-annual journal publication from 1st January to 30th June and from 1st July to
31st December.
Aims and Scope
It is particularly aimed at psychology researchers, lecturers and students but also at general readers
who are interested in this eld of science.
Psique publishes advances in basic or applied psychological research of relevance for understanding
and improving the human condition in the world. Contributions from all elds of psychology addressing
new developments with innovative approaches are encouraged. Articles that (a) integrate perspectives
from dierent areas within psychology; (b) study the roles of physical, social and cultural domains in
human psychological processes; or (c) include psychological perspectives from dierent regions in the
world are particularly welcomed.
The journal publishes papers in Portuguese, Spanish, French and English.
Directory: Repositório Cientíco de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP).
Databases: Repositório Institucional da Universidade Autónoma de Lisboa (Camões).
Indexed by: Academic Search (EBSCO Publishers)
Fuente Academic (EBSCO Publishers).
PSIQUE | Volume XVIII | Fascículo 1 | 1 de janeiro – 30 de junho 2022
Publicação semestral. Revista Cientíca do Centro de Investigação em Psicologia – CIP – da Universidade Autónoma
de Lisboa – Luís de Camões.
A Psique é uma revista cientíca em Psicologia, editada pelo Centro de Investigação em Psicologia da
Universidade Autónoma de Lisboa.
Desde 2005 publica artigos originais e comunicações na área cientíca da Psicologia, nos seus vários
domínios de especialização, de acesso livre e gratuito.
É um periódico semestral, a partir de 2018, com data de publicação de 1 de janeiro a 30 de junho e de
1 de julho a 31 de dezembro.
Âmbito e Objetivos
Dirige-se particularmente a investigadores, docentes e estudantes em Psicologia, mas também aos lei-
tores em geral que se interessem pelo conhecimento desta ciência.
A Psique publica avanços na investigação cientíca básica ou aplicada, em Psicologia, com relevância
para compreender e melhorar a condição humana no mundo. A Psique encoraja a submissão de con-
tribuições de todos os campos da Psicologia, produzindo novos desenvolvimentos cientícos, através
de abordagens inovadoras. Particularmente bem-vindos são os artigos que: (a) integram perspetivas de
diferentes áreas da Psicologia; (b) estudam o papel dos domínios físico, social e cultural nos processos
psicológicos humanos; ou (c) integram perspetivas psicológicas de diferentes regiões do mundo.
A revista aceita artigos em Português, Espanhol, Francês e Inglês.
Diretórios: Repositório Cientíco de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP).
Base de Dados: Repositório Institucional da Universidade Autónoma de Lisboa (Camões).
Indexação: Academic Search (EBSCO Publishers)
Fuente Academic (EBSCO Publishers).
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022
PUBLISHING INSTITUTION / INSTITUIÇÃO EDITORA
CIP – Centro de Investigação em Psicologia da Universidade Autónoma de Lisboa (CIP)
Rua de Santa Marta, n.º 47, 3.º, 1169-023 Lisboa
Phone Telefone: +351 213 177 667 | Fax: +351 213 533 702
LEGAL OWNER / PROPRIEDADE
CEU – Cooperativa de Ensino Universitário, C.R.L.
Rua de Santa Marta, n.º 47
1150-293 Lisboa – Portugal
Phone Telefone: +351 213 177 600/67
Fax: +351 213 533 702
N.I.F.: 501 641 238
DOI: https://doi.org/10.26619/2183-4806.XVIII.1
e-ISSN: 2183-4806
Title tulo: Psique
Site: https://cip.autonoma.pt/revista-psique/
Registration Status: Under Publishing Situação de Registo: Em Publicação
Format Suporte: Online
Periodicity: Semiannual Periodicidade: Semestral
Editor in Chief Director: Odete Nunes
Inscrição Inscription: 220129
Este trabalho é nanciado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia – no âmbito
doprojeto do CIP com a referência UIDB/04345/2020.
This work was funded by national funds through FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia – as part
the project CIP – Ref.ª: UIDB/04345/2020.
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022
EDITOR IN CHIEF DIRECTOR
Odete Nunes Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal onunes@autonoma.pt
ASSOCIATE EDITORS COEDITORES
José Magalhães
Luísa Ribeiro
Cristina Nunes
Rute Brites
Sandra Figueiredo
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
jmagalhaes@autonoma.pt
mribeiro@autonoma.pt
csnunes@ualg.pt
rbrites@autonoma.pt
sgueiredo@autonoma.pt
EDITORIAL BOARD CONSELHO EDITORIAL
Alexandra Gomes
Ana Antunes
Ana Gomes
Anne-Marie Vonthron
Aristides Ferreira
Carla Moleiro
Célia Oliveira
Daniel Roque Gomes
David Rodrigues
Dulce Pires
Edlia Alves Simões
Filomena Matos
Florence Sordes–Ader
Gina C. Lemos
Inês Ferreira
Isabel Leite
Isabel Mesquita
Isabel Silva
João Viseu
Jorge Gomes
José Eusébio Pacheco
Liliana Faria
Luis Sérgio Vieira
Magda Soa Roberto
Manuel Sommer
Marjorie Poussin
Melanie Vauclair
Miguel Ángel Garcia-Martin
Miguel Pereira Lopes
Monique K. LeBourgeois
Odete Nunes
Patrícia Jardim de Palma
Pedro Armelim Almiro
Pedro Duarte
Ricardo B. Rodrigues
Rosa Novo
Rui Costa Lopes
Saul Neves de Jesus
Sílvia Araújo
Tito Laneiro
Vera Engler Cury
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade da Madeira, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Univerité Paris Ouest-Nanterre, França
ISCTE, Lisboa, Portugal
ISCTE, Lisboa, Portugal
Universidade Lusófona Porto, Portugal
Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal
ISCTE, Lisboa, Portugal
I.Criap – Psicologia e Formação Avançada, Portugal
University of Saint Joseph (Macao), Macau
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade de Toulouse, França
Instituto Politécnico de Setúbal / Escola Superior de Educação
Universidade Europeia, Portugal
Universidade de Évora, Portugal
Universidade de Évora, Portugal
Universidade Fernando Pessoa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
ISEG – Universidade Técnica de Lisboa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade Europeia, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade da Beira Interior, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade de Lyon II, França
Instituto Universitário de Lisboa, Portugal
Universidad de Málaga, Espanha
ISCSP – Universidade de Lisboa, Portugal
University of Colorado Boulder, United States of America
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
ISCSP – Universidade Técnica de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidad Veracruzana, México
Instituto Universitário de Lisboa, Portugal
Universidade de Lisboa, Portugal
ICS – Universidade de Lisboa, Portugal
Universidade do Algarve, Portugal
Universidade do Minho, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil
asgomes@ualg.pt
aantunes@uma.pt
amgomes@autonoma.pt
anne-marie.vonthron@u-paris10.fr
aristides.ferreira@iscte.pt
carla.moleiro@iscte.pt
celia.oliveira@ulp.pt
Drmgomes@esec.pt
drs@iscte-iul.pt
dulcepires@ua.pt
edlia.simoes@usj.edu.mo
fmatos@ualg.pt
sordes@univ-tlse2.fr
gina.lemos@ese.ips.pt
ines.ferreira@universidadeeuropeia.pt
imss@uevora.pt
mesqui@uevora.pt
isabels@ualg.pt
jnviseu@ualg.pt
jorgegomes@iseg.utl.pt
jpacheco@ualg.pt
liliana.faria@europeia.pt
lsvieira@ualg.pt
magda.roberto@labcom.ubi.pt
msommer@autonoma.pt
marjorie.poussin@univ-lyon2.fr
melanie.vauclair@iscte-iul.pt
magarcia@uma.es
mplopes@iscsp.ulisboa.pt
monique.lebourgeois@colorado.edu
onunes@autonoma.pt
ppalma@iscsp.ulisboa.pt
paalmiro@autonoma.pt
pdias@uv.mx
rfprs@iscte-iul.pt
rnovo@psicologia.ulisboa.pt
rui.lopes@ics.ulisboa.pt
snjesus@ualg.pt
saraujo@ilch.uminho.pt
tlaneiro@autonoma.pt
vency2985@gmail.com
ASSISTANT EDITORS EDITORES ASSISTENTES
Afonso Herédia
Andreia Bandeira
Francisco Castro
Ana Jarmela
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
afonsodeheredia@gmail.com
andreia.lamy.bandeira@gmail.com
fcostacastro@gmail.com
ajarmela@autonoma.pt
TRANSLATION TRADUÇÃO
Carolina Peralta Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal cperalta@autonoma.pt
DESIGN COMPOSIÇÃO GRÁFICA
Undo geral@undo.pt
WEBSITE SITE
Undo geral@undo.pt
IT DEVELOPMENT DESENVOLVIMENTO INFORMÁTICO
Anselmo Silveira Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal asilveira@autonoma.pt
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022
TABLE OF CONTENTS ÍNDICE
Nota Editorial
Sandra Figueiredo 7
O Quociente de inteligência como característica neuropsicológica nos agressores sexuais
The intelligence quotient as a neuropsychological characteristic in sexual oenders
Marlene C. Marques & Lígia Ferros 8
Satisfação prossional do professor: uma análise multinível de características individuais do professor
ede características organizacionais da escola
Teacher job satisfaction: a multilevel analysis of individual teacher characteristics and school
organizational characteristics
Raiany Stefane Saué Poloni, João Arménio Lamego Lopes & Célia Regina Gomes Oliveira 27
Relationship between internet addiction and feelings of loneliness in university students from
a private institution southern Brazil
Relação entre adição à internet e os sentimentos de solidão emestudantes universitários
de uma instituição privada dosuldo Brasil
Bianca Ledur, Marina Schmitt, Luana Thereza Nesi de Mello & Ilana Andretta 49
O Papel do estágio curricular em psicologia na transição para o mercado de trabalho:
perceções e vivências de estagiários e psicólogos
The Role of curricular internship in psychology in the transition to the job market:
perceptions and experiences of interns and psychologists
Mafalda Sousa, Catarina Brandão, Ana Francisca Paiva & Ana Rita Freixo 60
El profesorado frente al aprendizaje autorregulado yel plagio académico
Teachers against self-regulated learning and academic plagiarism
Eva María Espiñeira Bellón, Jesús Miguel Muñoz Cantero & María Cristina Pérez Crego 89
Authors Instructions
Instruções aos Autores 104
Reviewers instructions
Instruções aos Revisores 108
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022
NOTA EDITORIAL
Este número apresenta um conjunto de artigos marcado por uma isotopia relevante na investigação atual
em Psicologia, a nível nacional e internacional. Por um lado, a seleção e a organização das presentes
publicações visaram estudos empíricos sólidos sobretudo do ponto de vista da Psicologia Aplicada. Por
outro lado, a autoria dos artigos tem origem em universidades nacionais e estrangeiras, estando os arti-
gos redigidos em diferentes nguas, permitindo uma visão mais alargada e transcultural dos temas abor-
dados. Estes temas são, neste número da Revista, oriundos de duas áreas da Psicologia. Portanto, ora
focam a Psicologia Educacional através da alise da satisfação profissional de docentes, das condições
de autorregulação na área docente e do papel do estágio curricular de psicólogos na transição para o
mercado de trabalho; ora a área da Psicologia Clínica com os temas relacionados com análise do quo-
ciente de inteligência de agressores sexuais e a adição à internet associada a sentimentos de solidão em
população universitária. No que respeita às populações estudadas, as amostras de adultos são predomi-
nantes nas investigações dos artigos aceites para publicação deste número da Revista Psique.
Primeiramente, apresenta-se um estudo que avaliou a inteligência geral de uma população de agressores
sexuais, confirmando a associação entre a população estudada e um valor de QI indicador de desempe-
nho intelectual deficitário. Depois, no segundo artigo foram correlacionados os efeitos de caraterísticas
individuais (dos professores) e das organizações (das escolas) na satisfação profissional dos professores.
Os dados revelaram que as caraterísticas individuais dos docentes têm maior valor preditor e moderador
do que as caraterísticas organizacionais. O terceiro artigo examina a associação entre comportamentos
de dependência da internet e sentimentos de solidão, constatando resultados significativos e positivos
nessa associação. O quarto artigo identifica os desafios, responsabilidades e dificuldades vivenciados
pelos psicólogos em estágio curricular. Por fim, o quinto artigo explora a ação dos professores quanto ao
plágio académico e ressalta a importância de uma maior supervisão neste assunto.
Salvo o rigor que o conselho editorial assegura mediante a arbitragem científica cega de pares durante
o processo de receção, de seleção, de revisão, de edição e paginação dos trabalhos, é importante fazer
uma nota de agradecimento a todos os autores que submeteram artigos ao longo do semestre. Portanto,
englobando todas as submissões e tentativas de publicação (não só os trabalhos aceites). Numa fase cada
vez mais competitiva, na área da publicação científica, reconhecemos o esforço de todos os trabalhos
submetidos à Revista. Junta-se à competitividade científica, o fator tempo e os critérios exigentes de
indexação demandam uma gestão intrépida da parte dos Editores e Revisores.
Em suma, é de suma importância endereçar o agradecimento à equipa editorial da Revista e aos autores
atendendo a todo o esforço inestimável que se concretiza na leitura, na gestão de processos de revisão
junto dos conselheiros editoriais em diferentes áreas cienficas, na emissão de pareceres face a submis-
sões e a revisões. E na conclusão de revisões que são, ainda, submetidas ao procedimento final de verifi-
cação por parte dos nossos assistentes editoriais. Reiterar o agradecimento aos autores por atenderem às
revisões com a maior acurácia e mestria.
Aos leitores, um agradecimento também por acolherem e partilharem este número considerando
estesartigos e a Revista Psique na vossa seleção de literatura e de apoio ao estudo e continuação de
investigação.
Sandra Figueiredo
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022
8
O QUOCIENTE DE INTELIGÊNCIA COMO CARACTERÍSTICA
NEUROPSICOLÓGICA NOS AGRESSORES SEXUAIS
THE INTELLIGENCE QUOTIENT AS A NEUROPSYCHOLOGICAL
CHARACTERISTIC IN SEXUAL OFFENDERS
Marlene C. Marques1 e Lígia Ferros2
PSIQUE • EISSN 21834806 • VOLUME XVIII • ISSUE FASCÍCULO 1
1ST JANUARY JANEIRO  30TH JUNE JUNHO 2022 PP. 826
DOI: https://doi.org/10.26619/2183-4806.XVIII.1.1
Submitted on 21.01.21 Submetido a 21.01.21
Acceptted on 9.07.21 Aceite a 9.07.21
Resumo
A relação entre características neuropsicológicas, nomeadamente a inteligência geral (QI), e
o crime de abuso sexual tem recebido atenção considerável na literatura. Embora não haja con-
senso absoluto, os resultados sugerem que os ofensores sexuais constituem um grupo de sujeitos
caracterizado por um desempenho individual limitado. O presente artigo avalia a inteligência
geral de 50 indivíduos a cumprirem medida privativa de liberdade por crimes de abuso sexual,
no Estabelecimento Prisional do Porto, partindo da hipótese de que esta população possuirá um
QI indicador de um funcionamento intelectual deficirio. Os instrumentos utilizados incluem
um questionário para recolha de dados sociodemográficos e um instrumento de avaliação da
inteligência geral, a Forma Geral das Matrizes Progressivas de Raven FG-MPR (Raven et al.,
2001). Os resultados obtidos confirmam a hipótese avançada.
Palavras-chave: crime, abuso sexual, inteligência, neuropsicologia
Abstract
The relationship between neuropsychological characteristics, namely general intelligence
(IQ), and the crime of sexual abuse has received considerable attention in the literature. Although
there is no absolute consensus, the results suggest that sexual offenders are a group of subjects
characterized by a limited individual performance. This article evaluates the general intelligence
of 50 individuals incarcerated at Oporto Prison, based on the hypothesis that this population have
1 Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Lusíada do Porto. Psicóloga na Divisão de Psicologia da Polícia de Segurança
Pública. Porto, Portugal. E-mail: mcmarques.psic@gmail.com
2 Professora na Universidade Lusíada do Porto. Diretora Científica do INSPSIC – Instituto Português de Psicologia. Porto, Por-
tugal. Email: ligiacferros@por.ulusiada.pt
9
Marlene C. Marques, Lígia Ferros
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
an IQ indicating deficient intellectual functioning. The instruments used include a questionnaire
for collecting sociodemographic data and an instrument for evaluating general intelligence, the
General Form of Ravens Progressive Matrices - FG-MPR (Raven et al., 2001). The results obtained
confirm the advanced hypothesis.
Keywords: crime, sexual abuse, intelligence, neuropsychology
O Quociente de Inteligência como Característica Neuropsicológica
nosAgressores Sexuais
O crime, na sua configuração mais gerica e inseparável da própria condição social da
humanidade, tem sofrido ao longo da história imeras alterações. Atualmente, apresenta as
caraterísticas de um fenómeno social (Cusson, 2007), manifestando-se em todas as sociedades,
de uma forma complexa, com repercussões a vários níveis, dando assim origem ao surgimento
de uma variedade de modelos explicativos, alguns do quais consagrando a distinção entre os
diferentes tipos de crime.
Ao longo das últimas cadas, têm sido muitas as evidências que sugerem que o funciona-
mento intelectual está associado ao crime (Hirschi & Hindelang, 1977; Wilson & Herrnstein, 1985).
Embora muitos investigadores considerem os fatores sociológicos, como a etnia ou a pobreza, os
grandes responsáveis pelo crime, outros tentaram demonstrar a imporncia do funcionamento
intelectual na compreensão do comportamento criminoso. Neste âmbito surgiram duas explica-
ções principais para o papel do desempenho intelectual no crime. Em primeiro lugar, foi sugerido
que o crime e a criminalidade são indiretamente influenciados por um baixo quociente de inteli-
ncia (QI) associado ao baixo desempenho escolar, desempenho profissional e adaptação e inte-
grão social em geral (Magdol et al., 1998; Ward & Tittle, 1994, citado por Guay et al., 2005). Uma
segunda explicão da relação entre inteligência e crime é chamada de hipótese direta, segundo
a qual indivíduos com baixo QI m menos probabilidade de antecipar as consequências das suas
ações e de compreender o sofrimento dos outros (Cusson, 1998). Portanto, pode-se supor, por
um lado, que a inteligência pode influenciar o desenvolvimento do comportamento criminoso e,
por outro, a forma como os crimes são cometidos (Guay et al., 2005). Assim, os estudos da rela-
ção entre crime e inteligência m-se focado, principalmente, na avaliação do impacto negativo
do funcionamento intelectual sobre comportamento criminoso e na avalião da influência do
baixo QI em variáveis como o planeamento do crime e a gravidade das ofensas.
De facto, a investigação levada a cabo nos últimos anos, tem deixado clara a existência de
uma ligação entre níveis baixos de QI e o envolvimento criminoso (Diaz et al., 1994; Jolliffe &
Farrington, 2004).
Numa investigação conduzida por Diaz et al. (1994), foi proposto que um QI mais baixo res-
tringe a probabilidade de sucesso académico na escola o que, consequentemente poderá aumen-
tar a probabilidade de execução de atos delinquentes. De forma mais ampla, a pesquisa que teve
como objetivo examinar as origens do comportamento ofensivo (particularmente na delinquên-
cia juvenil) identificou o baixo QI como um preditor do comportamento criminoso (Diaz et al.,
1994).
10
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
O Quociente de Inteligência como Característica Neuropsicológica nos Agressores Sexuais
Um outro grupo de investigadores também demonstrou que indivíduos com níveis de QI
mais baixos são mais propensos a cometer crimes mais graves e violentos (Hayes & McIIwain,
1988; Martell, 1991, citado por Freeman, 2012). Além disto, existem evidências que demonstram
que os infratores apresentam um QI mais baixo do que os não infratores (Wilson & Herrnstein,
1985, citado por Freeman, 2012).
Outros autores encontraram ligações entre uma inteligência deficitária e o comportamento
criminoso (McGarvey et al., 1981; Culberton et al., 1989, citado por Freeman, 2012).
Gibson e West (1970) compararam delinquentes com não delinquentes com recurso a tes-
tes de inteligência. Verificaram que os sujeitos inseridos nos grupos de delinquentes pontuaram
mais baixo nos subtestes verbais e não verbais. Estes resultados foram posteriormente confir-
mados por Wolfgang et al. (1972), que utilizaram uma amostra de 9945 indivíduos. As diferenças
encontradas indicaram que o grupo de não delinquentes pontuou mais alto nos instrumentos
que avaliaram a inteligência. Yeudall et al. (1982) também encontraram diferenças significativas
entre o QI de delinquentes e não delinquentes, tendo estes últimos obtido melhores resultados.
Alguns autores atribuem esta relação ao facto de indivíduos com menor inteligência serem
mais vulneráveis a envolverem-se em crimes, uma vez que têm uma capacidade reduzida de
compreender e comunicar de forma eficaz, perante possíveis ameaças interpessoais (Welte &
Wieczorek, 1999).
Contudo, é importante evidenciar que nem todos os indivíduos com QI baixo estão predis-
postos ou incorrem em crimes, uma vez que o comportamento humano, mais especificamente a
passagem ao ato criminal, resulta de um conjunto de fatores.
Concluindo, podemos dizer que segundo os estudos apresentados, as condutas criminosas
parecem apresentar um fator comum relacionado com um funcionamento intelectual deficitá-
rio. Isto permite-nos questionar se este desempenho intelectual mais baixo apresenta diferenças
significativas quando se distinguem os vários tipos de crime, nomeadamente aqueles que estão
relacionados com condutas sexuais.
Para isso, reveste-se de grande importância, antes de mais, fazer um enquadramento jurídico
dos crimes sexuais, no plano jurídico português.
Enquadramento Legal
Os crimes sexuais são descritos no Código Penal, sob o título “Crimes Contra A Liberdade e
Autodeterminação Sexual. Dentro deste tema, estão englobados crimes como a coação sexual, a
violação, o lenonio, o abuso sexual de criaas (Governo da República Portuguesa, 1995). Para
efeitos do presente estudo, tendo em conta que a amostra é constituída apenas por indivíduos
que cometeram crimes de violação e/ou abuso sexual, independentemente da idade da vítima ou
circunstâncias situacionais, as abordagens seguintes serão centradas nestes dois tipos de ofen-
sores sexuais.
Segundo o digo Penal (Governo da República Portuguesa, 1995), a violação é definida no
artigo 164º como:
1 quem, por meio de violência, amea grave, ou depois de, para esse fim, a ter tornado
inconsciente ou posto na impossibilidade de resistir, constranger outra pessoa: a) a sofrer
11
Marlene C. Marques, Lígia Ferros
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
ou praticar, consigo ou com outrem, cópula, coito anal ou coito oral; ou b) a sofrer intro-
dução vaginal ou anal de partes de corpos ou objetos; é punido com pena de prisão de três
a dez anos; e, 2- quem, por meio não compreendido no número anterior e abusando da
autoridade resultante de uma relação familiar, de tutela, ou de dependência hierárquica,
económica ou de trabalho, ou aproveitando-se de temor que causou, constranger outra
pessoa: a) a sofrer ou praticar, consigo ou com outrem, cópula, coito anal ou coito oral; b)
a sofrer introdução vaginal ou anal de partes de corpos ou objetos; é punido com pena de
prisão até ts anos. (p. 67)
Quanto à definão de abuso sexual, existem diferentes artigos no Código Penal (Governo da
República Portuguesa, 1995) nos quais se encontram estas definições, tendo por base os diferen-
tes tipos de vítimas. Assim, podemos encontrar o crime de Abuso Sexual de Pessoa Incapaz de
Resistência (artigo 165º), Abuso Sexual de Pessoa Internada (artigo 166º), Abuso Sexual de Crian-
ças (artigo 171º), e Abuso Sexual de Menores Dependentes (artigo 172º), entre outros.
Apesar da distinção ampla que o Código Penal prevê para os crimes sexuais importa, do
ponto de vista científico, compreender quais os fatores e circunstâncias que estão associados ao
aumento da probabilidade da prática destes crimes e quais os que contribuem para diminuir as
probabilidades de ocorrência de um comportamento desviante deste tipo.
Fatores de Risco e Fatores Protetores
Vários teóricos têm centrado a importância que o papel das práticas parentais desempenha
no comportamento criminoso, demonstrando que este influencia o grau com que os indivíduos
se envolvem em comportamentos antissociais (Hoeve et al., 2009; citado por Oliveira, 2016). No
que diz respeito aos fatores de risco familiares, em específico para o envolvimento dos indi-
víduos em crimes sexuais, rios estudos demonstraram a existência de uma relação entre o
funcionamento familiar e a ocorrência de agressão sexual. Para Farrington (1996) a pertença a
uma família numerosa, baixos níveis de supervisão parental, estilos educativos inconsistentes,
antecedentes psiquiátricos e criminais na falia podem estar relacionados com a ocorrência da
agressão sexual.
Alguns autores afirmam ainda que as crianças abusadas fisicamente, sexualmente ou negli-
genciadas ficam mais expostas ao desenvolvimento de condutas agressoras (Kim et al., 2009).
O desenvolvimento cognitivo e rendimento escolar baixos, a reduzida empatia e a elevada
impulsividade podem estar relacionados com a ocorrência de agressões sexuais (Lipsey & Der-
zon, 1998). Isto porque um quociente intelectual baixo está associado ao insucesso escolar que,
consequentemente, pode levar a um envolvimento deficitário e ao insucesso escolar. Por sua vez
estes fatores podem conduzir o indivíduo a abandonar precocemente a escola e a envolver-se em
comportamentos desviantes causados pela sensação de exclusão social.
Para Ward et al. (1999) a ausência de empatia pela vítima está presente nos agressores sexuais.
Neste sentido acredita-se que estes défices empáticos, possivelmente causados por experiên-
cias traumáticas precoces, possam estar relacionados com distorções cognitivas que impedem o
agressor de perceber o impacto causado (Hunter et al., 2007).
12
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
O Quociente de Inteligência como Característica Neuropsicológica nos Agressores Sexuais
Ao nível da reincidência do crime sexual verificou-se uma maior prevalência de perturba-
ções da personalidade diagnosticadas nestes agressores. O motivo reside no facto de estas des-
creverem um padrão persistente de comportamento mal-adaptativo que se manifesta em várias
áreas (e.g., cognição, afetividade, funcionamento interpessoal, controlo de impulsos) que podem
desencadear um prejuízo no funcionamento social, podendo as repetidas agressões sexuais ser
uma parte desse padrão comportamental (Doren, 2002).
Neste âmago é também importante considerar os fatores de proteção, isto é, as característi-
cas pessoais e circunstâncias associadas que reduzem a probabilidade de ocorrência de crimes
sexuais (Andrews, 1995).
Segundo Garmezy e Masten (1994; citado por Oliveira, 2016) existem três fatores de proteção
relevantes: (1) características individuais (e.g., autoestima, inteligência, capacidade para resolver
problemas e competências sociais), (2) fatores familiares, (estabelecimento de vínculos afetivos
positivos com a família) e (3) fatores da comunidade (e.g., escola, igreja, grupos de ajuda).
A capacidade para resolver problemas, a inteligência acima da média e as competências
sociais (e.g., sucesso académico, participação e sucesso em atividades, capacidade de se relacio-
nar facilmente, autoestima elevada e sensação de eficácia) são características que atuam como
fatores de proteção (Rae-Grant et al., 1989).
A existência de vínculos afetivos, o apoio e supervisão parental são indicativos de fatores
protetores que reduzem a probabilidade de as criaas desenvolverem comportamentos crimi-
nosos (Kumpfer & Alvarado, 2003).
A oportunidade de a criança interagir com os pares e outras figuras da sua comunidade, a
sensação de pertença a uma rede social estabelecida são características que diminuem a proba-
bilidade da criança vir a apresentar comportamentos delinquentes (Holden et al., 1998).
Tipologia dos Agressores Sexuais
Assim, podemos assumir que os agressores sexuais constituem um grupo heterogéneo que
pode ser classificado segundo diferentes tipologias. O estabelecimento de tipologias, possibilita
não só a identificação e caracterização deste tipo de indivíduos como também uma interven-
ção adequada e específica face às suas características. A utilidade desta diferenciação pode ser
estendida ao nível da investigação criminal, no que concerne à identificação das características
mais proeminentes de um determinado tipo de indivíduo que comete determinado tipo de com-
portamento sexual ofensivo, bem como na avaliação do comportamento sexual ofensivo futuro
e ao nível da reincidência no crime (Burgess et al., 2007).
Neste tipo de crimes, o mais comum é a diferenciação destes sujeitos atendendo ao tipo de
vítima. Contudo, para uma melhor compreensão destes indivíduos, é necessário conhecer as
suas características e as motivações que estão inerentes ao seu comportamento ofensivo. Esta
caracterização permite estabelecer um plano de tratamento mais eficaz, bem com uma forma
de alocar estes indivíduos nas instituições judiciais mais adequadas (Robertiello & Terry, 2007).
Como demonstrado, existem algumas características comuns nos violadores, como a baixa
autoestima, problemas de abuso de substâncias, gestão ineficaz dos sentimentos de raiva e regula-
ção estado de humor desadequada. Muitos deles provêm de famílias desestruturadas onde existe
inconsistência nas práticas educativas. Rebocho (2007), ao estudar os violadores portugueses,
13
Marlene C. Marques, Lígia Ferros
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
salientou que este tipo de agressores vivenciou um conjunto de experiências ao longo do seu
desenvolvimento que originaram tais comportamentos, defendendo a importância de explorar
essa realidade para que a intervenção seja o mais adaptada possível.
No caso dos abusadores sexuais de menores, o início do seu comportamento abusivo pode ter
diferentes causas, mas na sua maioria as competências sociais deficitárias, a baixa autoestima,
a sensação de inadequação, o sentimento de vulnerabilidade, a dificuldade nos relacionamentos
interpessoais com adultos, a autoimagem negativa, os problemas em termos de realização sexual,
a humilhação e a solidão, são as características mais presentes (Vieira, 2010).
Na literatura é possível encontrar tipologias de agressores sexuais distintas consoante o
ato cometido (e.g., pedofilia, violação, necrofilia, exibicionismo, fetichismo, voyeurismo, maso-
quismo, sadismo, entre outros.). Contudo, importa salientar que as tipologias existentes sobre os
agressores sexuais não são totalmente cabais, mas possibilitam uma compreensão mais com-
plexa dos fenómenos que se pretendem estudar.
Na literatura são vários os autores que classificam os tipos de violadores e abusadores sexuais.
Por exemplo, Cohen et al. (1971) refere a existência de quatro grupos diferentes de violação: (1)
a violação de agressão, cujo objetivo do ofensor é humilhar a vítima com recurso, muitas vezes,
ao uso de comportamentos sádicos; (2) a violação compensatória, em que o intuito do ofensor é
demonstrar a competência sexual, como forma de compensar a ausência de adequação a uma
vida socialmente adaptada; (3) a violação sexual agressiva, na qual, o ofensor impõe dano físico
nas vítimas como fonte de obtenção de prazer; e, (4) a violação impulsiva, na qual, o ofensor
comete o crime aproveitando uma oportunidade que surja.
No que toca aos abusadores de menores, Knight e Prentky (1990) criaram uma tipologia que
considera dois eixos: (1) o eixo da fixação e competência social independentes entre si e (2) o eixo
que tipifica a intensidade do contacto com as vítimas. Através desta diferenciação os autores
pretendiam diferenciar os agressores e avaliar o dano e o risco de vioncia.
De facto, Burgess et al. (2007) reforçam a ideia da importância da classificação dos ofensores
sexuais, permitindo uma melhor compreensão e caracterização dos indivíduos e, consequente-
mente, a construção de programas de intervenção mais individualizados e eficazes.
Investigões Realizadas no Âmbito dos Agressores Sexuais
A problemática dos crimes sexuais é um fenómeno complexo e tem vindo a ser reconhecida
como um grande problema social e de saúde pública (Reis et al., 2015). Deixou, desde muito,
de ser uma questão de elite ou de minorias, para ser um problema da comunidade e dos agentes
mais diretamente envolvidos com os indivíduos afetados por esta problemática. Como conse-
quência do aumento do número de denúncias de casos de abuso sexual e violação em todo o
mundo, cada vez mais os profissionais da saúde mental investem no desenvolvimento de progra-
mas de prevenção e de apoio à vítima (Grazina, 2016).
Apesar desta preocupação crescente e contínua, no desenvolvimento de estratégias de com-
bate a esta realidade, poucos têm sido os esforços de intervenção junto dos ofensores sexuais,
como forma de prevenção e intervenção.
No entanto, nas últimas décadas coma-se a assistir a uma preocupação crescente em com-
preender esta realidade, na perspetiva do abusador sexual.
14
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
O Quociente de Inteligência como Característica Neuropsicológica nos Agressores Sexuais
Neste sentido, alguns estudos científicos têm-se debruçado sobre os fatores comuns a este
fenómeno, havendo descobertas científicas que apontam para a presença de certas característi-
cas neuropsicológicas transversais aos indivíduos que cometem crimes de abuso sexual.
Contudo, apesar do crescente interesse sobre esta realidade, são escassos os estudos que
investigaram empiricamente a questão e grande parte da pesquisa científica sobre este tipo
de crime comparou apenas os criminosos sexuais, de uma forma geral, com os criminosos não
sexuais (Guay et al., 2005).
Dos estudos empíricos realizados verificou-se que uma parte não encontrou diferenças
significativas entre os dois grupos (Tarter et al., 1983; Vera et al., 1979, citado por Guay et al.,
2005). Outros estudos, que compararam certos subtipos de crimes sexuais, nomeadamente abuso
sexual, embora alguns tenham encontrado diferenças significativas no funcionamento intelec-
tual dos indivíduos que cometeram este tipo de crime (Langevin, et al., 1989; Ruff, et al., 1976,
citado por Guay et al., 2005), outros não observaram tais diferenças (Ford & Linney, 1995, citado
por Guay et al., 2005).
Uma das investigações que procurou avaliar várias dimensões neuropsicológicas, concluiu
que os agressores sexuais, cujas vítimas são crianças, tendem a obter pontuações mais baixas do
que os agressores sexuais de adultos ao nível das funções executivas, isto é, das competências
cognitivas necessárias para controlar e regular os pensamentos, emoções e ações. Por outro lado,
os agressores sexuais contra adultos tendem a obter resultados semelhantes aos de agressores
não sexuais, obtendo pontuações mais baixas no que toca à fluência verbal e inibição (Joyal et al.,
2014). No entanto, considerou-se necessária a realização de mais estudos neuropsicológicos que
distingam subgrupos específicos de agressores sexuais para confirmar estas tendências.
Apesar da escassez de estudos que reconheçam os vários subtipos de agressores sexuais,
quando se avaliam as características neuropsicológicas, grande parte das descobertas científicas
parece apontar para um denominador comum relacionado com a inteligência geral (Cantor et al.,
2005).
Ruff, et al. (1976) numa investigação em que compararam o QI de indivíduos condenados
por crimes de abuso sexual com o QI de indivíduos condenados cujo crime não estivesse rela-
cionado com o abuso sexual, obtiveram resultados que evidenciaram um QI significativamente
mais baixo no caso dos agressores sexuais. Estes dados são concordantes com o estudo realizado
por Guay et al. (2005), em que mostram que os agressores sexuais tendem a obter um desempe-
nho mais baixo nas escalas que avaliam a inteligência, quando comparados aos resultados da
restante população prisional. Também o estudo de Day (1994) dá suporte à ideia de que os ofen-
sores sexuais podem constituir um grupo diferente dos restantes sujeitos, caracterizado por um
desempenho intelectual limitado.
De facto, as evidências demonstram que a inteligência geral tem sido um fator neuropsico-
lógico relevante a ser considerado nos indivíduos que cometeram crimes de abuso sexual, uma
vez que tem sido estudado como estando associado a crimes desta natureza (Guay et al., 2005).
mais de 70 anos que a inteligência geral (QI) tem sido uma característica neuropsicoló-
gica muito estudada nos agressores sexuais (Cantor et al., 2005). Contudo, os resultados têm sido
inconsistentes e os estudos relevantes são muito escassos. Neste sentido, como ponto de partida,
pretende-se avaliar o QI de indivíduos a cumprirem prisão efetiva no Estabelecimento Prisional
(EP) do Porto, por este tipo de crime. A pertinência do interesse neste tópico relaciona-se com
as implicações que este estudo poderá ter na crião de orientações que possam pautar novas
15
Marlene C. Marques, Lígia Ferros
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
formas de tratamento clínico e reduzir, consequentemente, a reincidência desta problemática
(Capra et al., 2014).
Tendo como ponto de partida o quadro conceptual esboçado a partir dos estudos revistos,
procuraremos nesta investigação avaliar e analisar uma determinada característica neuropsico-
lógica, nomeadamente a inteligência geral (QI), dos agressores sexuais. Com este estudo preten-
de-se analisar a inteligência geral de indivíduos a cumprirem medida privativa de liberdade por
crimes de abuso sexual, partindo da hipótese de que esta população possui um QI revelador de
um funcionamento intelectual deficitário.
Método
Participantes
Procede-se em seguida a uma caracterização sociodemogfica da amostra, tendo em conta
a idade, o estado civil e as habilitações literárias (Tabela 1).
A amostra deste estudo foi constituída por 50 adultos do sexo masculino, condenados, a cum-
prirem medida privativa da liberdade (prisão efetiva) no Estabelecimento Prisional do Porto, por
crimes relacionados com abuso sexual. As idades variaram entre os 25 e os 70 anos, sendo a
média de idades 46 anos. No que se refere ao estado civil, 42% dos indivíduos o casados ou
vivem em união de facto, 30% são solteiros, 24% são divorciados e 2% são viúvos.
TABELA1
Caracterização sociodemográfica da amostra
Variáveis n%M DP
Idade 46 10,6
30 4 8.2
31 a 50 anos 27 55.1
≥ 51 anos 18 36.7
Estado Civil
Solteiro 15 30.6
Casado/União de facto 21 42.9
Divorciado/Separado 12 24.5
Viúvo 1 2.0
Habilitações Literárias
Analfabeto 1 2.2
1º ciclo (4ª classe) 15 32.6
2º ciclo (6º ano) 15 32.6
3º ciclo (9º ano) 11 23.9
Ensino secundário 2 4.3
Ensino superior 2 4.3
16
PSIQUE • e-ISSN 2183-4806 • Volume XVIII • Issue Fascículo 1 • 1st january janeiro-30th june junho 2022 pp. 8-26
O Quociente de Inteligência como Característica Neuropsicológica nos Agressores Sexuais
Instrumentos
No protocolo de avaliação recorreu-se a um questionário para recolha de dados sociodemo-
gráficos e um instrumento de avaliação da inteligência geral (Forma Geral das Matrizes Progres-
sivas de Raven – FG-MPR), que passaremos a descrever, em seguida.
1. Questionário:
Trata-se de um questionário construído pelas investigadoras, especificamente para este
estudo empírico, que permitiu a recolha de dados sociodemogficos relativos à idade, ao
estado civil, às habilitações literárias, ao número de filhos e à falia de origem.
2. Forma Geral das Matrizes Progressivas de Raven (FG-MPR):
A forma mais conhecida do Teste das MPR é a FG-MPR (publicada pela primeira vez em
1938) que foi concebida em Inglaterra por John Raven e Lionel Penrose, com o objetivo de
medir os processos de edução que Spearman considerava como a essência da inteligên-
cia (Jensen, 1980, citado por Garcia, 2016).
A FG-MPR consiste em perceber as características principais de uma matriz total ou
puzzle diagramático e apreender relações descobrindo, assim, as regras abstratas que
governam as diferenças entre os elementos da matriz. O Teste da FG-MPR consiste num
conjunto de tarefas inteiramente não-verbais e